domingo, 12 de outubro de 2014

As minhas viagens - Los Roques


Por Jorge Santos Silva

O verdadeiro espanto que sentimos num transe quase absoluto só é quebrado pela passagem de algumas nuvens preguiçosas, cardumes de peixes, um barco ou outro obrigatoriamente à vela ou a remos que mais não é permitido, o chilrear dos pássaros e, de tempos em tempos, mergulhadores a nadar sem rumo no meio daquela magnifica baía de corais.

Proposto o desafio de escrever sobre destinos, muitas das varias viagens que fiz me ocorreram mas, nestes tempos cinzentos lembrei-me dum dos lugares que contraria a geografia do paraíso; afinal ele é na Terra e fica no maravilhoso arquipélago de Los Roques, um pequeno e prodigioso arquipélago venezuelano em plenas Caraíbas, cuja riqueza natural é inigualável onde tudo é Sol e Mar.

Embarque e aproximação a Los Roques 

A viagem inicia-se logo pela manha. Um pequeno Dornier das linhas aéreas venezuelanas espera-nos em Maiquetía, o aeroporto internacional de Caracas para um voo de aproximadamente uma hora.
Los Roques é um destino que se aproveita desde o inicio já que a aproximação de terra é absolutamente mágica e oferece uma das melhores vistas aéreas que podemos sequer sonhar que exista. A cadência de tonalidades do mar vai-se alternando à medida que nos aproximamos de terra num verdadeiro arco-íris de azul.

O arquipélago é formado por aproximadamente 50 ilhas e 200 bancos de areia sendo Gran Roque a ilha principal e de maior dimensão onde vive a maioria da população e onde podemos encontrar algumas pousadas muito acolhedoras e típicas e outras de um nível mais internacional. De notar que só mesmo as melhores têm as condições de conforto a que estamos habituados já que nem todas possuem água quente. Não havendo água doce no arquipélago as pousadas contam com dessalinizadores mas o mais recomendável é mesmo beber água mineral.

Rua em Gran Roque, a ilha principal
Neste paraíso os dias são passados todo o ano ao sol ou a experimentar as maravilhas do mergulho num convívio impar com a natureza devido aos seus belíssimos recifes de coral e ao maravilhoso habitat que possui. A temperatura atinge com facilidade níveis muito altos mas curiosamente a areia das praias devido à sua formação calcária, não queima.

Um passeio de catamaran para melhor disfrutar
Os jantares, recomendavelmente com o que o mar oferece, são momentos de alegria por podermos desfrutar de tal lugar, a ver o mar clareado pelo brilho da lua a mistura-se com a dança que o fogo das tochas na praia nos ofe
rece. Ao deitar, o som distante do gerador, já que a ilha não possui energia eléctrica, recorda-nos que estamos em longínquas paragens, onde natureza e modernidade não se agridem. Um destino absolutamente imperdível cuja única tristeza é mesmo a da hora da partida.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Portugal Enjaulado

Imaginar uma democracia que funcione no nosso país, é o mesmo que supor um sistema de auto gestão bem sucedido num...hospício!

E cá entre nós, essa imagem tem muito mais de literal que de metafórica, não se iludam. 


Como sei que vão exigir que me explique melhor e depois vão pedir que me explique sobre a explicação dada, diria que um dos nosso vícios mentais mais desastrosos é confiarmos no nosso tipico "ranço", "esperarmos sentados".  Grosso modo resumiria assim: se fizermos tudo direitinho, escutar silenciosos ou em comentários de café os exercicios de verdadeiro "atirar o barro à parede" que é a forma de fazer politica neste país, com a educação e civismo que nos preconiza, assistirmos pacientemente a vê-los criar tradados legislativos para quatro anos e reduziado a pó nos quatro anos seguintes e, nos entretantos votando de quando em vez, pensariamos que um dia as coisas dariam certo? Desenganem-se. Não vão! O melhor mesmo é ter um bom plano de fuga porque os loucos andam agitados...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A arte Indo-Portuguesa

 Cristo Indo-português séc. XVII, em marfim 
Por: Jorge Santos Silva


Arte Indo-Portuguesa – Através das crónicas de época, principalmente na descrição do quotidiano feita pelos viajantes, e na análise da Inquisição em Goa, descobre-se a força da cultura, da civilização, pré-existente, muito vinculada às suas próprias crenças. É indiscutível que a essência estética e criativa da arte indo-portuguesa surge de uma miscigenação cultural, derivada de uma presença colonizadora e missionária, ou de meros contactos comerciais, tendo recebido grande influência local.

A isto acrescentemos a força religiosa indiana, inspiradora das suas diversas expressões. Se a arte portuguesa renascentista foi poderosa em muitas de suas expressões e a cultura humanista floresceu principalmente em Lisboa e Coimbra, a arquitectura portuguesa, que já se firmara em relação à construção militar e civil, a sua proposta religiosa firmou-se verdadeiramente na Contra-Reforma, quando eclodiu o estilo barroco no séc. XVIII, expandindo-se rapidamente pelos seus domínios ultramarinos, colocando a sua marca principalmente em Goa.

Quando no início do século XVI, Afonso de Albuquerque chegou a Goa, a presença da expressão plástica do Islão, juntamente com a hindu, era muito visível.
De Portugal chegavam quer por motivos económicos, para efectuar trocas, quer por motivos religiosos, com o objectivo de incrementar os templos cristãos, enumeros objectos de arte. A estes, juntaram-se desde a primeira viagem artistas e artífices do Reino que propiciaram uma contaminação da arte local e dos seus executores, provocando, uma forte miscigenação da arte local. Um dos exemplos a citar é a imagem de S. Rafael que acompanhou Vasco da Gama na sua primeira viagem (hoje no Museu da Marinha) e que serviu mais tarde de modelo a muitos ícones feitos por artistas locais.

A primeira referência a um retábulo pintado na Índia data de 1516 para o vigário de Calicute. Os artistas indianos tentaram adaptar-se ao gosto europeu se bem que estes artistas a quem os cristãos de Cochim encomendaram uma série de pinturas, devessem com certeza ser cristãos convertidos pois “os gentios não deveriam pintar cenas religiosas (por reverencia de Deus)” como cita Pedro Dias em a Arte Indo-Portuguesa. Esta insistência tornou-se letra morta pois o principal pintor de Goa em 1559 era pagão e responsável pelos retratos dos vice-reis. Também as notáveis peças de ourivesaria que integravam o tesouro de D. Manuel eram feitas por artistas locais.
A primeira obra documentada de Rauluchatim é um punhal feito para Afonso de Albuquerque em 1515 por certo o fundador da ourivesaria luso indiana. Trinta anos depois da chegada de Vasco da Gama à Índia a miscigenação estética estava consumada.

Muitos são os exemplos de arte indo portuguesa que hoje podemos apreciar, ao nível do mobiliário, dos têxteis, da imaginária, ou ainda da ourivesaria e da talha dourada. Na imaginária existe grande diversidade de soluções formais, desde a pequena imagem devocional, os oratórios e os “Calvários de Pousar”, ou imagens do Bom Pastor que é porventura o melhor exemplo de miscigenação simbólica entre as duas culturas. Na ourivesaria sacra o túmulo de S. Francisco Xavier no Bom Jesus de Velha Goa merece particular destaque dado o tratamento filigranado das superfícies.

Contador Indo-Português (Noroeste indiano), séc. XVII
Decoração geométrica embutida em marfim.
O mobiliário Indo-Português assumiu em todo o séc.XVII, o estatuto de mobiliário de luxo, visto que as peças vindas do oriente não eram abrangidas pelas leis de austeridade Filipinas, o que tornou estas peças de particular fascínio em que salientaria pela riqueza alcançada, os Contadores Indo-Portugueses.

O efeito aculturador na relação Oriente/Ocidente também produziu efeitos na arte portuguesa com a tentativa de imitar os produtos importados e que se reflecte na tapeçaria de Arraiolos e nas magnificas colchas de Castelo Branco, ou ainda nas faianças dos séculos XVII e 1ª metade do XVIII.