quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A arte Indo-Portuguesa

 Cristo Indo-português séc. XVII, em marfim 
Por: Jorge Santos Silva


Arte Indo-Portuguesa – Através das crónicas de época, principalmente na descrição do quotidiano feita pelos viajantes, e na análise da Inquisição em Goa, descobre-se a força da cultura, da civilização, pré-existente, muito vinculada às suas próprias crenças. É indiscutível que a essência estética e criativa da arte indo-portuguesa surge de uma miscigenação cultural, derivada de uma presença colonizadora e missionária, ou de meros contactos comerciais, tendo recebido grande influência local.

A isto acrescentemos a força religiosa indiana, inspiradora das suas diversas expressões. Se a arte portuguesa renascentista foi poderosa em muitas de suas expressões e a cultura humanista floresceu principalmente em Lisboa e Coimbra, a arquitectura portuguesa, que já se firmara em relação à construção militar e civil, a sua proposta religiosa firmou-se verdadeiramente na Contra-Reforma, quando eclodiu o estilo barroco no séc. XVIII, expandindo-se rapidamente pelos seus domínios ultramarinos, colocando a sua marca principalmente em Goa.

Quando no início do século XVI, Afonso de Albuquerque chegou a Goa, a presença da expressão plástica do Islão, juntamente com a hindu, era muito visível.
De Portugal chegavam quer por motivos económicos, para efectuar trocas, quer por motivos religiosos, com o objectivo de incrementar os templos cristãos, enumeros objectos de arte. A estes, juntaram-se desde a primeira viagem artistas e artífices do Reino que propiciaram uma contaminação da arte local e dos seus executores, provocando, uma forte miscigenação da arte local. Um dos exemplos a citar é a imagem de S. Rafael que acompanhou Vasco da Gama na sua primeira viagem (hoje no Museu da Marinha) e que serviu mais tarde de modelo a muitos ícones feitos por artistas locais.

A primeira referência a um retábulo pintado na Índia data de 1516 para o vigário de Calicute. Os artistas indianos tentaram adaptar-se ao gosto europeu se bem que estes artistas a quem os cristãos de Cochim encomendaram uma série de pinturas, devessem com certeza ser cristãos convertidos pois “os gentios não deveriam pintar cenas religiosas (por reverencia de Deus)” como cita Pedro Dias em a Arte Indo-Portuguesa. Esta insistência tornou-se letra morta pois o principal pintor de Goa em 1559 era pagão e responsável pelos retratos dos vice-reis. Também as notáveis peças de ourivesaria que integravam o tesouro de D. Manuel eram feitas por artistas locais.
A primeira obra documentada de Rauluchatim é um punhal feito para Afonso de Albuquerque em 1515 por certo o fundador da ourivesaria luso indiana. Trinta anos depois da chegada de Vasco da Gama à Índia a miscigenação estética estava consumada.

Muitos são os exemplos de arte indo portuguesa que hoje podemos apreciar, ao nível do mobiliário, dos têxteis, da imaginária, ou ainda da ourivesaria e da talha dourada. Na imaginária existe grande diversidade de soluções formais, desde a pequena imagem devocional, os oratórios e os “Calvários de Pousar”, ou imagens do Bom Pastor que é porventura o melhor exemplo de miscigenação simbólica entre as duas culturas. Na ourivesaria sacra o túmulo de S. Francisco Xavier no Bom Jesus de Velha Goa merece particular destaque dado o tratamento filigranado das superfícies.

Contador Indo-Português (Noroeste indiano), séc. XVII
Decoração geométrica embutida em marfim.
O mobiliário Indo-Português assumiu em todo o séc.XVII, o estatuto de mobiliário de luxo, visto que as peças vindas do oriente não eram abrangidas pelas leis de austeridade Filipinas, o que tornou estas peças de particular fascínio em que salientaria pela riqueza alcançada, os Contadores Indo-Portugueses.

O efeito aculturador na relação Oriente/Ocidente também produziu efeitos na arte portuguesa com a tentativa de imitar os produtos importados e que se reflecte na tapeçaria de Arraiolos e nas magnificas colchas de Castelo Branco, ou ainda nas faianças dos séculos XVII e 1ª metade do XVIII.



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